Clippings
 

Fala Criola

Por Marcio Moreira Alves

Hoje, Dia Internacional da Mulher, faço essa coluna em homenagem às mais discriminadas do Brasil, vítimas do duplo preconceito de raça e de sexo: as negras. Quando conseguem romper o cerco da miséria é porque se esforçaram dez vezes mais do que as outras. Quando são chefes de família, suas famílias são as mais pobres. Apesar dos obstáculos, se organizam para romper o cerco.

Jurema Werneck, de 40 anos, é uma negra bonita, esguia, que usa óculos sem aro, como as professoras das novelas. Nascida e criada no Morro dos Cabritos, em Copacabana, formou-se em medicina pela UFF em 1986, fez concurso para a prefeitura e foi lotada no programa de saúde das favelas, na Rocinha. Sua equipe tinha 21 membros, todas mulheres, sendo que sete eram esterilizadas. Conta:

- Estranhei essa alta incidência de esterilizações e tratei de aprofundar uma pesquisa sobre o assunto. Descobri que, nas favelas e nas zones pobres do país inteiro, havia programas de esterilização, voltados principalmente para mulheres negras e mestiças nordestinas. Era um programa indiscriminado, que tanto atingia mulheres com muitos filhos como primíparas e até adolescentes, que faziam ligação das trompas quando abortavam. As mulheres eram convencidas de que a ligação das trompas era a única maneira segura de ter sexo sem ter filhos. Não eram informadas de outra forma de controle de natalidade. Senti que havia discriminação racial nessa história. Nós, mulheres negras, temos um sentido muito apurado para reconhecer situações de discriminação. Um estudo da Rede Nacional Feminista de Saúde constatou que, em 1987, 47% das mulheres negras em idade reprodutiva tinham sido esterilizadas por cirurgias. Criamos grupos de pressão e, afinal, o Congresso aprovou um projeto de lei do deputado Eduardo Jorge reprimindo a esterilização indiscriminada. Foi o início da Criola.

Criola é uma organização não-governamental, criada em setembro de 1992 por Jurema e 25 outras mulheres negras do Rio de Janeiro, com o objetivo de lutar por saúde, acesso à educação, direitos humanos, geração de emprego e renda e prevenção de violência contra mulheres, jovens e adolescentes negras. A sede é uma sala ampla na Avenida Presidente Vargas, bem no centro da cidade. Jurema explica que a escolha da sede foi pensada como uma forma de incentivar a ocupação do Centro por negros, que geralmente se reúnem nas periferias. A sede é hoje própria, comprada com o dinheiro de uma ONG alemã, a Fundação Henrich Boll. Outra ONG, a Public Welfare Foundation, da Califórnia, financia o boletim periódico "Toques", fundamentalmente dedicado a passar informações sobre a saúde, como a anemia falciforme, uma doença genética que só atinge a população negra. O boletim é bem impresso, em excelente papel, distribuído pelo correio para cinco mil pessoas.

Jurema conta que, ao decidir criar uma ONG, o grupo interessado se reuniu e, como acontece nos nascimentos, tratou de escolher o nome:

- Uma das fundadoras sugeriu que batizássemos nossa organização como um desafio, com uma palavra que cada uma de nós já ouviu muitas vezes, como um xingamento: criola. Foi o que fizemos.

Jurema é uma mulher decidida, que não aceita portas fechadas. Em pouco tempo verificou a existência de outras organizações dedicadas a superar preconceitos e a ajudar quem se dedica a difundir informações médicas e educacionais. A mais importante para o desenvolvimento da Criola foi a Fundação Ashoka, de apoio a empreendedores sociais. Adotada como fellow da fundação, teve abertos seus contatos internacionais, que são muitos e universais. Conheceu e estabeleceu parcerias com organizações de mulheres negras nos Estados Unidos e até com uma organização na Índia que tenta vencer a discriminação religiosa contra os membros das castas inferiores. Essas ligações permitiram o desenvolvimento de alguns projetos da Criola. Os projetos mais interessantes são voltados para a multiplicação da capacidade de mulheres negras para atuarem nas suas comunidades. Há um projeto de treinamento de agentes de saúde, com seis reuniões quinzenais de três horas, com ênfase na prevenção da Aids. O projeto Obinrin Odara, que em iorubá quer dizer mulher bonita, tem oficinas relacionadas com o corpo: estética afro-brasileira; tranças, torços e amarrados; expressão corporal; e outras atividades destinadas a desenvolver a identidade e a auto-estima de mulheres, adolescentes e meninas negras. O programa de estágios, voltado para estudantes do fim do ensino fundamental, recebe estagiárias da Escola de Serviço Social da UFRJ e da Pontífica Universidade Católica do Rio de Janeiro.

Criola é um esforço modesto em proporção ao tamanho da população negra, mas é um exemplo que pode ser reproduzido. Isso é o essencial.


Fonte: O Globo, 8 de março de 2002